Eremita moderno

À MARGEM – O chapa Ismar Neres de Oliveira dorme no caixote: “Quanto menos me envolver com as pessoas, melhor”

Em meio ao grande movimento de carros e caminhões na Rodovia Fábio Talarico, em frente ao Aterro Municipal, os motoristas se deparam com a mesma cena há dez anos. Um homem de 38 anos utiliza quatro grades de madeira apoiadas umas nas outras como moradia. A casa improvisada fica no acostamento rodeada por coqueiros e peças de roupas, calçados, utensílios de cozinha e outros objetos espalhados pelo chão. Ex-segurança e pedreiro, Ismar Neres de Oliveira diz sobreviver com os R$ 100 que ganha por semana como chapa, ajudando no transporte e carregamento de caminhões.

Ele conta que foi morar no local motivado por frustrações na família e dependência química originada pelo uso de drogas. Ismar já foi casado. Separado há 11 anos e sem filhos, ele disse que saiu da casa da mãe, de 60 anos que mora no Jardim São Luiz, em busca de liberdade. O chapa se diz trabalhador e garante que apenas o vício em crack – que já dura mais de 20 anos – o impede de voltar arranjar um serviço. Ele diz ter muitas dificuldades até para se alimentar. “Não consigo comer porque a droga não deixa, não sinto fome direito. De vez em quando como um pão ou alguma comida, mas a cada três dia uso craque”, disse.

Sem a família por perto, Ismar também lamenta as rejeições que já sofreu. “Nunca vi meu pai. Gostaria de me encontrar com ele, conversar”, disse. Ismar também conta que sente o preconceito das pessoas nas ruas e por isso parou de pedir ajuda. “Já me negaram prato de comida. Estavam distribuindo refeições e quando entrei na fila, não me deram porque sabiam que usava drogas. Neste dia desisti de pedir.”

Atualmente ele vive a espera de serviços na estrada, uma rotina solitária. Para comer, ele prefere o que não precisa ir ao fogo. De outra forma, tem de utilizar uma panelinha e uma fogueira improvisada para cozinhar. Já para tomar banho ele usa um córrego próximo à estrada. Correndo perigo à beira da rodovia, com muito barulho e passando frio, Ismar fala quase como um eremita. “Quanto menos me envolver com as pessoas, melhor para mim.”

O único momento de entusiasmo do morador do caixote durante a entrevista aconteceu quando ele confessou ter uma paixão por esportes de luta. Disse que já deu aulas de boxe e mostrou seu saco de pancadas: um pneu pendurado em um dos coqueiros ao lado da “casa”. “Uso para me defender, me distrair e ensinar os meus amigos que passam por aqui.”

Ismar não pede, mas sonha em ganhar uma bíblia, um saco de pancadas de verdade e um par de luvas para treinar seu esporte favorito.

Conclusão: Somos responsáveis por nosso destino, e nossas escolhas, e onde elas nos leva.

Um pensamento sobre “Eremita moderno

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